‘’Rainha do basquete’’ destaca características e atitudes que servem tanto para atletas como profissionais de qualquer área


‘’Você pode escolher ser o melhor ou ser mais ou menos, eu escolhi o caminho de ser a melhor, mas aí você vai arcar com suas escolhas’’.

 

Assim iniciou Hortência Marcari, a ‘’Rainha do basquete’’, a palestra ‘’Lições de uma vida – estratégias, valores e atitudes de uma campeã, última palestra do Top Seller Event 2017, organizado pela RCI Brasil, nos dias 22 e 23 de novembro, no Mabu Grand Thermas Resort, em Foz do Iguaçu/PR.

 

A ex-jogadora de basquete Hortência é um dos principais nomes do esporte nacional. Defendeu a seleção brasileira de basquete feminino por mais de 20 anos e possui números impressionantes: maior cestinha (pontuadora) da história da seleção brasileira, com 3.160 pontos em 127 partidas disputadas; já foi campeã sul-americana, pan-americana, mas os grandes destaques são: campeã mundial, em 1994, e medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996.

 

Hortência ressaltou que a vida é feita das nossas escolhas. ‘’Muita gente escolhe uma profissão pelo dinheiro, mas se preocupe em ser o melhor, porque o dinheiro vai atrás do melhor’’, afirmou. ‘’Tem problema em ser mais ou menos? Não! Mas você vai ganhar mais ou menos. Se um dia tiver uma crise, quem vai embora? O mais ou menos’’.

 

Ela exemplificou que o dinheiro vai atrás do melhor com sua própria experiência. Hortência nunca procurou empresas por patrocínio. ‘’Ou patrocinava o meu time ou o da Paula, ou seria o terceiro colocado’’.

 

Reconhecimento aos melhores

Apesar do chamado ‘’espírito olímpico’’, Hortência contou que na última Olimpíada na qual participou, em Atlanta, em 1996, quando o time foi medalha de prata, logo ao chegar na cidade, na vila olímpica, tinha um outdoor com os dizeres: ‘’Aqui tem 2.500 atletas’’. E ela pensou estar errado a campanha, pois apenas na vila olímpica haviam mais de 12.000 atletas. Mas o outdoor era feito para os atletas vencedores, os medalhistas.

 

Ao se aposentar das quadras, quando engravidou do primeiro filho, Hortência escolheu manter o seu corpo saudável. ‘’As pessoas me veem e comentam que o meu corpo está nessa forma porque era atleta’’, disse. ‘’O Ronaldo também foi atleta, o Adriano ainda é atleta’’, brincou, arrancando gargalhadas do público.

 

‘’Eu fiz a escolha de continuar malhando quando parei de jogar’’, afirmou.

 

Prazer no que faz

Gostar do que faz, ter prazer no seu emprego. Hortência apontou a importância de se divertir na profissão que escolher, mas sem deixar de ser determinado, disciplinado e esforçado. ‘’Eu treinei muito, pra c…, não tive sorte, abri mão de muitas coisas, mas eu gostava de fazer isso’’.

 

E gostar do que faz é ainda mais importante quando se pensa no caminho, que é duro. Hortência citou a campanha da Nike, ‘’Rala que Rola’’, para dizer que não tem milagre nem sorte, existe muito esforço. ‘’Nada se conquista sem dor, tem a dor física e psicológica’’.

 

‘’Trabalhe no que você gosta e você nunca terá que trabalhar na sua vida’’, afirmou.

 

Nascida para ser atleta

 

Hortência nasceu em Potirendaba/SP, a 36 km de São José do Rio Preto. ‘’A cidade dobrou a população desde que eu nasci, tinha cerca de 7 mil habitantes e hoje, 15 mil’’, brincou.

 

Nessa época, quando tinha seis anos de idade, Hortência descobriu o que era competição. ‘’Eu sou muito competitiva’’, contou. ‘’Eu queria competir com os meninos’’.

 

Aliás, Hortência não queria saber de brincadeiras de meninas, como brincar de boneca. Ela se interessava em jogar futebol, correr, pular, nadar no rio, subir em árvore. ‘’Eu nasci em um corpo errado, eu penso igual homem’’, brincou.

 

Em relação a esporte, ela se mostrava boa em tudo que se propunha a fazer. ‘’Eu nasci para ser atleta’’.

 

O primeiro esporte no qual se apaixonou foi o handebol. Já adolescente, ao se mudar para São Caetano/SP, quis entrar no time de handebol da escola, mas uma aluna disse que o time já estava fechado.

 

Passou a se interessar pelo basquete e essa mesma aluna, que impediu sua entrada no time de handebol, disse estar treinando em uma escolinha, com a ex-jogadora de basquete da seleção brasileira Marlene. Hortência se interessou, mas, novamente, a menina disse que não tinha vaga. Então, Hortência foi apenas assistir ao treino.

 

A escolinha era mista, ou seja, meninos e meninas treinavam juntos. Quando Marlene chegou, todos adolescentes passaram a seguir a ex-jogadora. Menos Hortência. Ao ver Hortência fora da quadra, Marlene disse: ‘’E você, não vem?’’.

 

‘’Desde o primeiro dia que recebi a bola de basquete na mão, dois anos depois, já era titular da seleção brasileiro adulta’’, disse Hortência.

 

Treine bastante

Durante seus mais de 20 anos de carreira, além dos treinos físicos e técnicos normais, Hortência treinava muito arremesso, 1000 por dia, 500 durante a manhã e 500 à tarde. ‘’Fora os que eu errava’’, contou. ‘’Persista no que você faz de melhor, tem que se preparar adequadamente’’.

 

Desde que ensinaram Hortência a arremessar a bola, ela sempre praticou daquela maneira. ‘’Apenas os dedos encostam na bola, a palma da mão não, e o último dedo a deixar a bola é o indicador,  Muitos não aprenderam isso bem’’.

 

Quando jogava, ela tinha um ritual antes de arremessos livres, de respirar profundamente, para concentrar e diminuir as batidas do coração, assim, a possibilidade de acertar era maior. ‘’Eu não ficava nervosa antes do jogo, ficava ansiosa, estava preparada’’.

 

Sempre há pressão

Para chegar na seleção brasileira, Hortência teve que jogar bem pelo clube. Já na seleção, teve que ficar entre as doze relacionadas. Depois, entre essas doze, tinha que lutar para ser titular. Uma vez titular, há sete jogadores no banco de reservas querendo jogar.

 

‘’Se jogar mal vai para o banco, a vida é assim’’, afirmou. ‘’É pressão para todo lado, pressão para quem ganha muito e para quem ganha pouco’’.

 

Adaptar as adversidades

Recentemente, Hortência participou do reality show The Ultimate Fighter, em que lutadores de MMA buscavam a vitória para assinar contrato com o UFC. Hortência fez parte do time do lutador americano Chael Sonnen. O outro time havia o lutador brasileiro Wanderlei Silva e a ex-jogadora de basquete Paula.

 

Ela não queria participar do programa, mas foi obrigada por força de contrato. ‘’Nunca tinha visto uma luta de MMA. No primeiro dia de gravação já assisti 16. Foi sangue para todo lado, braço deslocado. Fiquei horrorizada’’.

 

Hortência teve que se adaptar aquilo e passou a entender e torcer para os lutadores de sua equipe. ‘’Depois do programa comecei a treinar Muay Thai’’.

 

Trabalho de equipe é fundamental

‘’Demorei 18 anos para entender a importância da equipe, quando compreendemos isso começamos a ganhar’’, contou Hortência. ‘’Se cada um tiver a sua vontade, esta errado, tem que fazer o que foi combinado, trabalho de equipe’’.

 

Aprendendo com as derrotas

‘’Eu não apenas treinava, eu me preparava para o acerto. Eu não gosto de perder e nunca perdi, quem ganhou foi o time adversário, fiz tudo que eu podia. Não me sinto derrotada. Teve alguém melhor que eu’’, disse Hortência. ‘’E quando as derrotas surgem tem que aprender a perder’’.

 

Concorrência para estimular o seu melhor

Hortência com equipe da RCI

Hortência tinha uma concorrente: Paula. Hortência era a ‘’Rainha’’ e Paula ‘’Magic’’. Juntas eram muito importantes, mas também havia uma concorrência para saber qual era a melhor. ‘’Eu vivi a minha vida inteira para ganha dela’’.

 

Essa concorrência saudável fez com que as duas sempre se superassem ano após ano. ‘’Eu não teria ido tão longe se não fosse ela’’. Elas jogavam em times opostos, mas na seleção estavam juntas. ‘’A competição convivendo com a cooperação – coopetição’’.

 

‘’Você tem que ter um concorrente, pois corre o risco de perder para você mesmo’’, afirmou. ‘’Nosso concorrente não é nosso inimigo, nos impulsiona para correr ainda mais’’.

 

Hortência encerrou a sua palestra com o discurso que fez quando entrou para o Basketball Hall of Fame, nos Estados Unidos, em 2005. Depois tirou muitas fotos com os participantes do evento.

 

  • A Revista Turismo Compartilhado cobriu o Top Seller Event a convite da RCI Brasil.